Mídias e tecnologia como causa e escape
Atualizado: 28 de out. de 2025
O cenário contemporâneo do adoecimento mental, manifestado nas doenças invisíveis, está intrinsecamente ligado à ascensão das mídias digitais e da tecnologia. As plataformas sociais atuam paradoxalmente, configurando-se simultaneamente como recurso de apoio e fator de risco para o sofrimento psíquico.
A pesquisa Mental Health and Digital Technologies (Ndindeng, 2025) investiga como as mídias sociais moldam a ansiedade, a depressão e a autoestima dos usuários. Os resultados quantitativos apontam uma relação direta: indivíduos que passam mais de três horas diárias nas redes sociais apresentam maior probabilidade de relatar sintomas de ansiedade e depressão.
O principal mecanismo de dano é a comparação social, responsável por 65% da variação nas pontuações de autoestima. Além disso, o uso excessivo das plataformas intensifica a busca pela autoapresentação idealizada e a preocupação com a imagem corporal.
Outros elementos que configuram o risco incluem:
• Vieses algorítmicos e pressões estéticas: usuários, especialmente mulheres, pessoas LGBTQ+ e indivíduos de regiões de baixa renda, enfrentam riscos ampliados devido à intensificação de filtros e pressões estéticas digitais.
• Reforço da lógica do desempenho: a tecnologia contribui para a normalização das doenças invisíveis ao promover discursos baseados em produtividade excessiva. O uso performático das redes reforça narrativas de eficiência, intensificando o sofrimento psíquico.
A mídia e a tecnologia operam dentro de um contexto cultural mais amplo, descrito por Malena Contrera (2017) como a Mediosfera: um campo simbólico autônomo e hipertrofiado, formado pelas produções midiáticas contemporâneas. Na Mediosfera, a imaginação foi externalizada e o sujeito consome visualmente suas angústias em vez de elaborá-las internamente. Essa cultura midiática, ao estetizar o sofrimento e transformá-lo em conteúdo compartilhável, contribui para a normalização do adoecimento psíquico.
Esse processo dialoga com os conceitos de Byung-Chul Han, que descreve a Sociedade do Cansaço (2015), onde o indivíduo se autoexplora em nome de uma suposta liberdade, tornando-se refém do imperativo de rendimento. Nesse ambiente de violência da positividade, o sofrimento deve ser suprimido ou medicado, e as doenças mentais são vistas como falhas individuais a serem superadas.
Apesar dos riscos, a tecnologia é frequentemente utilizada como uma forma de escape emocional frente às frustrações cotidianas. O impacto da mídia social na saúde mental é ambivalente.
As redes sociais desempenham um papel ambíguo no processo de enfrentamento do estresse. Elas funcionam como:
1. Recursos de apoio: as comunidades online podem aumentar o senso de pertencimento, fortalecer vínculos sociais e oferecer espaços de acolhimento e diálogo.
2. Ferramentas de coping: a tecnologia é usada para aliviar sentimentos negativos através da distração, do desabafo e da busca de apoio social.
Contudo, a eficácia desse escape é questionável. O uso excessivo pode prolongar o estresse e aprofundar a desconexão com a realidade afetiva, resultando na consolidação da tecnologia como um refúgio simbólico do mal-estar contemporâneo.
